Lançada em 1977 para estudar Júpiter e Saturno, a Voyager 1 ultrapassou todos os limites imaginados por seus criadores. Hoje, ela navega no espaço interestelar.
Uma missão de 5 anos que durou 50
Quando a Voyager 1 decolou do Cabo Canaveral em 5 de setembro de 1977, seus engenheiros da NASA planejaram uma missão de 5 anos. O objetivo: estudar Júpiter, Saturno e suas luas. Ninguém imaginava que, quase cinco décadas depois, ela ainda estaria transmitindo dados — agora de uma região do espaço que nem existia nos livros de astronomia da época.
A sonda já percorreu mais de 24 bilhões de quilômetros. A velocidade da luz demora 22 horas e 40 minutos para percorrer essa distância. Quando os engenheiros da NASA enviam um comando para a Voyager 1, a resposta chega quase dois dias depois.
O Disco de Ouro: uma mensagem para civilizações alienígenas
Carl Sagan liderou um comitê que selecionou o conteúdo do Disco de Ouro da Voyager — um disco fonográfico de cobre banhado a ouro contendo saudações em 55 idiomas, músicas de Bach, Chuck Berry e música tradicional de diversas culturas, sons da Terra (ondas do mar, trovões, risos de uma criança, batimentos cardíacos) e 116 imagens codificadas de nossa civilização.
O disco foi projetado para durar mais de um bilhão de anos no vácuo interestelar. Sagan sabia que as chances de ser encontrado por outra civilização eram infinitesimais, mas insistiu: "O lançamento desta garrafa no oceano cósmico diz algo muito esperançoso sobre a vida neste planeta." A Voyager 1 é, essencialmente, a primeira carta de amor da humanidade ao universo.
A fronteira do Sistema Solar
Em 25 de agosto de 2012, a Voyager 1 fez história: cruzou a heliopausa — a fronteira onde o vento solar cede à pressão do meio interestelar. Ela se tornou o primeiro objeto feito pelo homem a entrar no espaço interestelar, a região entre as estrelas.
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Mas "sair do Sistema Solar" é um conceito complicado. O Sol exerce gravidade em objetos a anos-luz de distância. A Voyager 1 ainda está firmemente presa gravitacionalmente ao Sol. O que ela cruzou foi a fronteira magnética, não a gravitacional. Mesmo assim, é uma conquista sem precedentes.
O sistema que ainda funciona com tecnologia dos anos 70
A Voyager 1 opera com um computador com apenas 69,63 quilobytes de memória — menos que uma calculadora moderna. Seu processador funciona a 160 kHz, milhares de vezes mais lento que um smartphone atual. Transmite dados a 160 bits por segundo, uma velocidade que parece risível hoje.
Seu sistema de energia, um gerador termoelétrico de radioisótopos (RTG), converte calor do decaimento de plutônio-238 em eletricidade. Mas o plutônio está se esgotando. Em 2019, a NASA teve que desligar sistemas para economizar energia. Estima-se que a Voyager 1 tenha energia suficiente para operar alguns instrumentos até 2030. Depois disso, continuará viajando em silêncio para sempre.
Para onde ela vai?
Dentro de 40.000 anos, a Voyager 1 passará a 1,6 ano-luz da estrela Gliese 445. Em 300.000 anos, pode cruzar a nuvem de Oort, a região cometa que marca a verdadeira fronteira gravitacional do Sistema Solar. Em um milhão de anos, quem sabe?
Longevidade de civilizações sendo considerada, a Voyager 1 é provavelmente o legado mais duradouro da humanidade. Pirâmides se desfarão, livros se apagarão, continentes se moverão. Mas essa pequena sonda de 825 quilogramas continuará sua jornada solitária pelo vazio interestelar, carregando nossa história consigo, para sempre.