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O iPhone Quase Não Existiu: A História do Projeto Secreto que Mudou o Mundo
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O iPhone Quase Não Existiu: A História do Projeto Secreto que Mudou o Mundo

Em 2005, a Apple estava construindo um iPad. Foi Steve Jobs quem, em um gesto de raiva, matou o projeto e exigiu um celular. O resultado mudou a história da tecnologia, da economia e da própria Apple.

Marcelo Dargelio
Marcelo DargelioEspecialista
19 de maio de 20268 min19.8 mil leram
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Em janeiro de 2007, Steve Jobs subiu ao palco do Macworld e tirou um iPhone do bolso. A apresentação durou 78 minutos e revolucionou a tecnologia. Mas poucos sabem: a Apple estava construindo um tablet, não um celular. O iPhone nasceu de uma briga.

Em janeiro de 2007, Steve Jobs subiu ao palco do Moscone Center em São Francisco para o Macworld Expo. Vestia sua uniforme icônica — gola alta preta, jeans Levi's 501, tênis New Balance 991 — e carregava algo que ninguém naquela sala jamais tinha visto.
Ele tirou do bolso direito da calça um dispositivo fino, preto, com uma tela de vidro que respondia ao toque. O público de 4.000 pessoas aplaudiu por 40 segundos ininterruptos. Em 78 minutos de apresentação, Jobs demonstrou algo que a indústria inteira considerava impossível: um celular com tela sensível ao toque, navegação por internet real e um iPod integrado.
Mas a história do iPhone não começou com um celular. Começou com um tablet.

Projeto Purple: o tablet que ninguém pediu

Em 2003, Jony Ive, o designer-chefe da Apple, liderava um projeto secreto chamado "Purple". A ideia era criar um tablet com tela multitouch — um dispositivo que você seguraria com as duas mãos e usaria os dedos para navegar. A tecnologia de toque capacitivo existia em laboratórios desde os anos 1980, mas ninguém havia feito funcionar em escala comercial.
A equipe de Ive, trabalhando em um prédio isolado no campus da Apple em Cupertino, construiu protótipos usando uma tecnologia experimental da FingerWorks, uma pequena empresa de Delaware que desenvolvia interfaces touch. A Apple adquiriu a FingerWorks em 2005, principalmente por suas patentes de multitouch.
Os primeiros protótipos do tablet — que Jobs chamava carinhosamente de "segredo mais bem guardado da Apple" — eram dispositivos de 10 polegadas com uma interface que parecia ciência-ficção. Você podia pinçar para ampliar fotos, deslizar para navegar, tocar para selecionar. Mas havia um problema: ninguém sabia para que servia. Um tablet sem teclado, em 2003, não tinha mercado. Não havia apps. Não havia Wi-Fi ubíquo. Não havia necessidade.

A reunião que mudou tudo

Em 2005, durante uma reunião de estratégia com a diretoria executiva, Jobs apresentou o protótipo do tablet. A recepção foi morna. Os executivos viram algo brilhante, mas sem mercado. Jobs, conhecido por seu temperamento, ficou furioso. "Vocês não entendem nada", ele teria dito, segundo relatos do biografo Walter Isaacson.
Mas então algo inesperado aconteceu. Jobs olhou para o tablet na mesa e disse: "Se fizermos isso menor, cabe no bolso. Se cabe no bolso, é um celular. E todo mundo precisa de um celular."
Foi um gesto de raiva que virou genialidade. Em vez de um tablet grande que ninguém compraria, Jobs ordenou que a equipe concentrasse todos os esforços em um dispositivo menor. A tela de 10 polegadas virou 3,5 polegadas. O tablet virou celular. E o celular virou o iPhone.

Os protótipos que ninguém viu

Antes do iPhone final, a Apple construiu mais de 200 protótipos funcionais. Alguns tinham tela circular. Outros tinham botões físicos embaixo da tela — Jobs os chamava de "botões de estúpido" e os removia pessoalmente com uma lixadeira. Um protótipo tinha um scroll wheel como o iPod, que Jobs considerou por 3 semanas antes de abandonar.
O design final — uma única peça de vidro sobre alumínio escovado — foi inspirado em uma banheira. Ive, em uma viagem a uma loja de design em Munique, ficou fascinado com a sensação de um banho de imersão de acrílico transparente. Queria que segurar o iPhone transmitisse a mesma sensação: algo sólido, contínuo, sem costuras entre você e a tecnologia.
Mas o vidro era um pesadelo de engenharia. O primeiro fornecedor, uma empresa alemã, entregou uma tela que rachava em queda de 1 metro. A Apple trocou para Corning, que desenvolveu especialmente para o iPhone o que viria a ser chamado de Gorilla Glass — um vidro de alumínio-silicato que resistia a impactos 30x melhor que o vidro comum.

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O dia em que quase deu errado

A apresentação do Macworld de 2007 foi um milagre de engenharia teatral. Jobs tinha 6 protótipos de iPhone. Nenhum funcionava completamente. O primeiro — o que ele usou para demonstrar a função telefônica — tinha um bug onde, se você ligasse para o mesmo número duas vezes, o sistema travava. Jobs ensaiou a sequência exata de ligações para evitar repetições.
O protótipo que mostrava o navegador Safari tinha uma memória tão limitada que, se você carregasse uma página grande como o New York Times, o sistema reiniciava. A solução da equipe? Pré-carregar uma versão reduzida da página em cache local, e fingir que estava buscando na internet. Jobs tocou no ícone do NYT, a página "carregou" instantaneamente, e ninguém na plateia soube que era uma ilusão.
O protótipo do iPod? Ele tocava uma única playlist de 20 músicas. Se você tentasse sincronizar mais, o sistema corrompia. Jobs sabia exatamente quais músicas tocar em que ordem durante a demo.
A apresentação foi, em essência, um filme de duas horas com 6 atores diferentes interpretando o mesmo personagem. E funcionou.

O impacto que ninguém previu

No primeiro fim de semana, a Apple vendeu 270.000 iPhones. No primeiro ano, 6 milhões. Hoje, mais de 2,3 bilhões de iPhones foram vendidos, tornando-o o produto eletrônico mais vendido da história.
Mas o impacto vai além dos números. O iPhone criou a economia de apps — um mercado que hoje movimenta US$ 1,2 trilhão anualmente. Criou o Instagram, o Uber, o WhatsApp — todos existem porque o iPhone existiu primeiro. Transformou a fotografia, a música, a navegação, o jornalismo, o comércio, a medicina, a educação.
Em 2007, a Apple valia US$ 75 bilhões. Em 2025, valia US$ 3,5 trilhões. O iPhone representa 52% da receita da empresa. Um produto que quase não existiu — porque nasceu de um tablet que ninguém queria, em uma reunião onde o CEO perdeu a paciência.

A moral da história

Em 2010, a Apple finalmente lançou o iPad — o tablet original que deu origem ao iPhone. Vendeu 3 milhões de unidades nos primeiros 80 dias. Mas nunca teve o impacto cultural do celular. O tablet era uma boa ideia na hora errada. O celular era uma ideia nascida da urgência.
Steve Jobs morreu em 5 de outubro de 2011, aos 56 anos. Seu último produto apresentado foi o iPhone 4S, 16 meses após o lançamento original do iPhone. Quando perguntado, anos antes, qual era sua invenção favorita, ele respondeu: "Ainda não fiz. Estou trabalhando nela."
Se existe uma lição no nascimento do iPhone, é que as maiores revoluções não nascem de planos perfeitos. Nascem de raiva, de improviso, de erro, de alguém dizendo "e se fizermos diferente?" em uma sala onde todos concordavam que o plano atual era suficiente. O iPhone quase não existiu. E talvez por isso ele importa tanto.
Quem escreveu isso
Marcelo Dargelio

Marcelo Dargelio

Equipe Editorial

Especialista em conteúdo editorial. Escreve com o compromisso de transformar informação complexa em texto que faz sentido pra vida real.

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