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A Internet Antes da Internet: Como ARPANET Enviou o Primeiro E-mail da História
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A Internet Antes da Internet: Como ARPANET Enviou o Primeiro E-mail da História

Em 29 de outubro de 1969, um estudante da UCLA tentou enviar a palavra "LOGIN" para Stanford. A conexão travou na letra "G". Era o começo de tudo.

Marcelo Dargelio
Marcelo DargelioEspecialista
18 de maio de 20269 min22.1 mil leram
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Em 29 de outubro de 1969, às 22h30, um estudante de pós-graduação chamado Charley Kline sentou-se em um terminal da UCLA e digitou a letra "L". Estava prestes a enviar a primeira mensagem de uma rede de computadores que mudaria o mundo para sempre.

Em 29 de outubro de 1969, às 22h30 no horário de Los Angeles, um estudante de pós-graduação de 21 anos chamado Charley Kline sentou-se em um terminal da UCLA — um dispositivo que parecia uma máquina de escrever conectada a um computador do tamanho de um quarto — e digitou uma letra. "L".
A letra viajou por uma linha telefônica de 50 kbits/s até o Stanford Research Institute, a 560 quilômetros de distância, em Menlo Park. No outro lado, outro estudante, Bill Duvall, viu a letra aparecer em seu terminal. Kline continuou. "O". Duvall confirmou. E então Kline digitou "G".
O sistema travou. A mensagem completa deveria ser "LOGIN". Só chegaram "LO". A conexão caiu. Mas algo havia acontecido que nunca antes tinha ocorrido: dois computadores conversaram.

O nascimento da ARPANET

A ARPANET (Advanced Research Projects Agency Network) não nasceu como uma utopia de compartilhamento livre de informações. Nasceu como um projeto militar de sobrevivência nuclear. Em 1962, durante a Crise dos Mísseis de Cuba, o Departamento de Defesa dos EUA temia que um ataque soviético destruísse seus sistemas de comunicação centralizados. Se Washington caísse, o país inteiro ficaria cego.
O psicólogo e cientista da computação J.C.R. Licklider, então chefe da ARPA (agora DARPA), tinha uma ideia radical: em vez de uma rede centralizada, criar uma rede distribuída onde cada nó pudesse se comunicar com qualquer outro nó, independentemente de quem caísse. Não haveria um "centro" para destruir. A informação encontraria seu caminho, mesmo em ruína.
Esta visão levou ao desenvolvimento do packet switching — a tecnologia que quebra dados em pequenos "pacotes" que viajam por rotas diferentes e se reconstroem no destino. Foi inventada independentemente por Paul Baran nos EUA e Donald Davies no Reino Unido. Eles nunca se encontraram. Ninguém "inventou" a internet sozinho.

O primeiro e-mail: uma história de raiva

O primeiro e-mail verdadeiro foi enviado em 1971 por Ray Tomlinson, um engenheiro da BBN Technologies em Cambridge, Massachusetts. Ele não estava tentando revolucionar a comunicação humana. Estava irritado.
Tomlinson trabalhava em um programa chamado SNDMSG que permitia que usuários do mesmo computador deixassem mensagens uns para os outros em arquivos compartilhados. Mas cada computador da ARPANET era um mundo isolado. Tomlinson queria enviar uma mensagem para um colega em outro computador. Então ele fez algo brilhantemente simples: adaptou o SNDMSG para usar o protocolo de transferência de arquivos (FTP) para mover a mensagem entre computadores.
Para separar o nome do usuário do nome do computador, Tomlinson precisava de um símbolo que não aparecesse em nomes de usuário. Olhou para seu teclado modelo 33 Teletype. Escolheu o @. "É a única preposição da língua inglesa", ele brincaria décadas depois.
A primeira mensagem? Tomlinson não se lembra exatamente. Provavelmente algo como "QWERTYUIOP" — um teste de teclado. Nada poético. Nada do tipo "O que Deus uniu, a ARPANET não separará." Só barulho. Mas o barulho viajou entre dois computadores pela primeira vez como uma mensagem pessoal.

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De 4 nós para 4 bilhões

Em dezembro de 1969, a ARPANET tinha 4 nós: UCLA, Stanford Research Institute, UC Santa Barbara, e a Universidade de Utah. Em 1973, ela se conectou ao University College de Londres — a primeira conexão internacional. Em 1983, a ARPANET adotou o protocolo TCP/IP, criado por Vint Cerf e Bob Kahn, que se tornaria a espinha dorsal da internet moderna.
Em 1990, a ARPANET foi oficialmente desativada. Tinha cumprido seu propósito — e sido transcendida. A NSFNET, uma rede acadêmica financiada pelo governo, já a havia superado em escala. E em 1991, um cientista do CERN chamado Tim Berners-Lee inventaria a World Wide Web, transformando a infraestrutura da ARPANET em algo que qualquer pessoa poderia usar.

Os detalhes que ninguém conta

O primeiro "crash" da ARPANET aconteceu em 27 de outubro de 1980 — não por um ataque soviético, mas por um erro de tipografia. Um estudante de Harvard adicionou um caractere extra em uma tabela de roteamento. O erro se propagou por toda a rede como um vírus, paralisando-a por horas. Foi o primeiro "bug" de escala global.
Em 1976, a rainha Elizabeth II se tornou a primeira chefe de estado a enviar um e-mail — durante uma visita ao centro de pesquisa da Royal Signals and Radar Establishment. Sua mensagem? "Esta mensagem dá início à era oficial da comunicação por computador entre chefes de estado." Detalhe: a mensagem demorou 2 minutos para ser transmitida. Hoje, 2 minutos é tempo suficiente para receber 300 e-mails.
E o símbolo @? Ray Tomlinson jamais patentou sua escolha. Nunca ganhou um centavo com ela. Morreu em 2016, aos 74 anos, tendo visto sua preposição improvisada se tornar o símbolo mais reconhecido do comércio, comunicação e identidade digital do mundo.

O que Charley Kline não sabia

Charley Kline, o estudante que enviou "LO" em vez de "LOGIN", não sabia que estava fazendo história. Para ele, era apenas um teste. "Foi emocionante", ele lembraria 50 anos depois. "Mas na época, parecia só mais um dia no laboratório."
Kline tinha um filho em 1971. Seu filho teve um filho em 2000. Seu neto, nascido 31 anos depois daquele "LO", enviou seu primeiro e-mail aos 7 anos. Dois computadores conversando em 1969. Um menino conversando com o mundo em 2007. Uma rede de 4 nós. Uma rede de 4 bilhões de nós. A mesma história, continuada. A mesma letra "L", sendo digitada, ainda agora, por alguém, em algum lugar, começando algo que eles talvez nunca imaginem.
Quem escreveu isso
Marcelo Dargelio

Marcelo Dargelio

Equipe Editorial

Especialista em conteúdo editorial. Escreve com o compromisso de transformar informação complexa em texto que faz sentido pra vida real.

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